Saltar para o conteúdo
Modelos e Ciência de IE

Peter Salovey e John Mayer: Os Pais da Inteligência Emocional

Escola de IE 11 min de leitura
Peter Salovey e John Mayer: Os Pais da Inteligência Emocional

Em resumo

Antes de Goleman existiram Peter Salovey e John Mayer. Descubra quem realmente criou o conceito de inteligência emocional e porque isso importa.

Índice do artigo

Diz "inteligência emocional" a qualquer pessoa e o nome que surge é quase sempre o mesmo: Daniel Goleman. Foi o seu livro, em meados dos anos 90, que colocou estas duas palavras na boca de gestores, professores e pais em todo o mundo. Mas há um pormenor que a maioria desconhece.

Goleman não inventou o conceito. Escreveu sobre ele. E fê-lo com talento suficiente para que o nome dos verdadeiros criadores se apagasse da memória colectiva.

Antes de Goleman, houve dois psicólogos académicos que se sentaram, olharam para décadas de investigação e ousaram propor algo que soava quase herético: que as emoções não são o oposto da inteligência — são uma forma dela. Chamavam-se Peter Salovey e John Mayer. Este é o retrato deles. Não do modelo que criaram, mas das pessoas por trás da ideia.

Antes do conceito ter nome: o clima intelectual dos anos 80

Para entenderes a ousadia do que Salovey e Mayer fizeram, tens de te transportar para a psicologia do final dos anos 80. Era um mundo dominado por uma régua: o QI. Media-se a inteligência, previa-se o sucesso escolar, e pronto — o resto era considerado ruído.

Nesse mapa mental, a emoção ocupava o lugar do adversário. Herdeira de séculos de filosofia que via a paixão como inimiga da razão, a emoção era aquilo que nublava o julgamento, que fazia perder a cabeça, que estragava as decisões lúcidas. Ser "emocional" era quase um insulto. A pessoa racional mantinha os sentimentos à porta.

Propor que as emoções pudessem ser uma fonte de inteligência, e não um obstáculo a ela, ia contra esta corrente. Era nadar contra a maré.

As raízes que já estavam plantadas

Justiça seja feita: a ideia não brotou do vazio. Décadas antes, o psicólogo Edward Thorndike já tinha falado de "inteligência social" — a capacidade de compreender e lidar com outras pessoas. A semente estava lá, mas ficara adormecida, sem grande desenvolvimento científico.

E, mais perto, Howard Gardner tinha acabado de abalar o consenso com a sua teoria das inteligências múltiplas. Gardner argumentava que não existe uma inteligência única, mas várias — incluindo uma inteligência interpessoal e outra intrapessoal, ligadas à compreensão dos outros e de nós próprios.

Gardner abriu a porta. Salovey e Mayer entraram por ela e foram mais longe: pegaram no território difuso das emoções e perguntaram se ali existiria uma inteligência coerente, definível, mensurável. Foi essa pergunta que mudou tudo.

Dois investigadores, uma pergunta

As grandes ideias raramente nascem de uma mente solitária. Nascem do encontro. E a inteligência emocional é filha do encontro de dois olhares muito diferentes.

Peter Salovey estava em Yale. O seu terreno era a psicologia da saúde e o estudo das emoções — como os estados emocionais afectam o corpo, as decisões, o bem-estar. Tinha um interesse profundo pela forma como as pessoas processam aquilo que sentem, e pelo impacto disso na vida real.

John Mayer, então ligado à Universidade de New Hampshire, vinha da psicologia da personalidade e da cognição. Interessava-lhe a arquitectura da mente — como se organizam os traços, como interage o pensamento com o afecto. Um olhar mais estrutural, mais preocupado com o "como funciona por dentro".

Junta um investigador fascinado pelas emoções e pela saúde com outro fascinado pela estrutura da mente, e algo interessante acontece. A pergunta que os uniu foi, no fundo, simples e vertiginosa: e se a forma como lidamos com as emoções for uma capacidade mental, tão real e tão variável entre pessoas como qualquer outra inteligência?

Não sabemos os detalhes íntimos de como se conheceram — e não vale a pena inventá-los. Sabemos o que importa: foi uma colaboração académica genuína, em que dois campos distintos convergiram numa ideia que nenhum dos dois teria formulado sozinho com a mesma nitidez.

O artigo que mudou tudo (1990)

Em 1990, Salovey e Mayer publicaram um artigo científico com um título que hoje parece óbvio, mas que na altura era quase provocador: "Emotional Intelligence". Inteligência emocional. Duas palavras que, até ali, poucos tinham ousado juntar com seriedade científica.

Foi aqui que a origem da inteligência emocional enquanto conceito rigoroso ficou registada. Não numa palestra motivacional, não num livro de auto-ajuda — num paper académico, com definição, argumento e método.

A definição original era elegante na sua clareza. Descreviam a inteligência emocional como a capacidade de perceber emoções, de as usar para facilitar o pensamento, de compreender o seu significado e a sua evolução, e de as regular em nós próprios e nos outros. Percepção, uso, compreensão, regulação. Quatro movimentos de uma mesma competência humana.

Repara no que isto tem de humano. Não estavam a falar de controlar as emoções, nem de as suprimir. Estavam a falar de as ler, de as usar como informação, de as entender. A pessoa emocionalmente inteligente não é a que sente menos — é a que sente com discernimento.

Porque escolheram a palavra "inteligência"

A escolha da palavra não foi acidental nem cosmética. Foi uma decisão científica e, de certa forma, corajosa.

Ao chamarem-lhe inteligência, Salovey e Mayer estavam a fazer uma afirmação forte: isto não é um traço de personalidade, não é uma moda, não é uma qualidade vaga de "boa pessoa". É uma capacidade mental genuína — algo que se pode definir, que varia de pessoa para pessoa, que se relaciona com outras capacidades cognitivas e que, em princípio, se pode medir.

Esta insistência no rigor tornou-se a marca de água do trabalho deles. E é também a raiz da tensão que vinha aí. Porque uma coisa é uma inteligência definida com precisão científica. Outra, muito diferente, é um conceito que se espalha ao ritmo de um best-seller.

A ironia da fama: quando Goleman levou o crédito

Cinco anos depois do artigo de 1990, tudo mudou. Em 1995, o jornalista científico Daniel Goleman publicou um livro chamado, precisamente, "Inteligência Emocional". Foi um fenómeno. Vendeu milhões, atravessou continentes, entrou em empresas e escolas, e transformou uma ideia académica num movimento cultural.

Aqui está a ironia que dá título a esta secção. Salovey e Mayer criaram o conceito. Goleman colheu a fama. Para muita gente, ainda hoje, "inteligência emocional" e "Goleman" são praticamente sinónimos — e os dois nomes que a pensaram primeiro caíram no esquecimento popular.

Seria fácil transformar isto num vilão e duas vítimas. Não é assim tão simples, e a justiça exige nuance.

O que se ganhou e o que se perdeu

Goleman fez algo que Salovey e Mayer, enquanto investigadores, dificilmente conseguiriam: levou a ideia a milhões de pessoas que nunca leriam um artigo científico. Deu-lhe alcance, linguagem acessível, aplicação prática. Sem ele, a inteligência emocional talvez tivesse ficado confinada às revistas académicas. Esse é um contributo real.

Mas alargar tem um preço. Na versão popularizada, o conceito esticou-se. Passou a incluir motivação, empatia, competências de liderança, quase tudo aquilo que faz alguém ter sucesso na vida para além do QI. Ganhou amplitude e perdeu precisão. Para muitos, "inteligência emocional" virou um guarda-chuva difuso onde cabe tudo — e quando um conceito explica tudo, corre o risco de deixar de explicar seja o que for.

É esta tensão entre popularização e rigor que ainda hoje divide o campo, e que dá origem a diferentes formas de olhar a IE — desde os modelos de capacidade mais estritos aos modelos mistos mais abrangentes.

Convém dizê-lo com clareza: o próprio Goleman credita Salovey e Mayer como os criadores do conceito. Nunca reivindicou a paternidade da ideia. A distorção não foi obra dele — foi obra do modo como a cultura de massas devora nomes e guarda apenas o mais visível.

De duas para quatro capacidades: como o modelo amadureceu

A história de Salovey e Mayer não parou em 1990. Enquanto o mundo debatia a versão de Goleman, os dois cientistas continuaram a fazer o que sempre fizeram: refinar, testar, apertar o rigor.

Ao longo dos anos, e mais tarde com a colaboração de David Caruso, foram amadurecendo a sua proposta até chegar ao modelo de quatro ramos — quatro capacidades hierarquizadas que descrevem a inteligência emocional de forma mais estruturada do que a formulação original. É a espinha dorsal daquilo a que se chama o modelo de capacidade, distinto dos modelos que misturam emoção com traços de personalidade.

Não vou entrar aqui no detalhe de cada ramo — esse território tem casa própria e merece ser explorado com calma noutro lugar. O que importa neste retrato é outra coisa: a evolução mostra-te que tipo de cientistas eram estes dois homens. Não se contentaram com a fama da ideia. Continuaram a interrogá-la.

E fizeram algo decisivo para a credibilidade do campo. Criaram um instrumento para medir a inteligência emocional como uma capacidade real, com respostas mais certas e menos certas — o MSCEIT. Porque, se afirmas que a IE é uma inteligência genuína, tens de conseguir avaliá-la de forma objectiva. Caso contrário, é apenas uma boa história.

O que distingue o olhar de Salovey e Mayer

  • Rigor antes de alcance: definiram a IE com precisão científica antes de a deixarem crescer.
  • Inteligência, não traço: insistiram que é uma capacidade mental mensurável, não uma qualidade de carácter.
  • Emoção como informação: as emoções não são ruído a eliminar — são dados a compreender.
  • Evolução contínua: refinaram o modelo durante décadas, sem se agarrarem à primeira versão.
  • Medição séria: construíram formas de avaliar a IE como capacidade, não apenas como auto-percepção.

O legado silencioso

Há uma justiça poética estranha na história destes dois homens. Criaram um dos conceitos mais influentes da psicologia moderna, e fizeram-no de tal forma que a ideia sobreviveu ao seu próprio anonimato público.

Peter Salovey seguiu uma carreira notável em Yale, subindo até à presidência da universidade — o cargo máximo de uma das instituições académicas mais prestigiadas do mundo. John Mayer continuou o seu trabalho de investigação e docência na Universidade de New Hampshire, aprofundando o estudo da personalidade e da inteligência. Cada um à sua maneira, mantiveram-se fiéis ao rigor que os definiu desde o início.

E talvez seja este o ponto mais tocante de toda a história. As ideias que mais mudam o mundo nem sempre carregam, aos olhos do público, o nome de quem as pensou primeiro. Milhões de pessoas hoje falam de inteligência emocional, treinam-na, valorizam-na, procuram desenvolvê-la — sem saber a quem devem o conceito.

Conhecer Salovey e Mayer é, no fundo, um acto de gratidão. É reconhecer que por trás de uma expressão que virou moda existe ciência séria, décadas de trabalho, e a coragem de dois investigadores que apostaram numa ideia impopular. Quando valorizas o rigor por trás da inteligência emocional, honras esse legado silencioso.

Podes aprofundar as origens do conceito num artigo da própria Yale Center for Emotional Intelligence, co-fundado por Salovey — uma continuação directa deste trabalho.

Perguntas Frequentes

Quem inventou o termo inteligência emocional?

Foram os psicólogos Peter Salovey e John Mayer, num artigo académico publicado em 1990. Definiram-na como a capacidade de perceber, compreender e regular emoções, próprias e alheias. O conceito só ganhou fama mundial anos mais tarde, com o livro de Daniel Goleman em 1995.

Qual a diferença entre Salovey, Mayer e Goleman?

Salovey e Mayer são os investigadores académicos que criaram e definiram cientificamente a inteligência emocional como uma capacidade mental. Goleman foi o jornalista que popularizou o conceito para o grande público, alargando-o a competências como motivação e liderança. Uns deram-lhe rigor; o outro deu-lhe alcance.

Peter Salovey e John Mayer ainda trabalham juntos?

Continuam a ser referências centrais no campo da inteligência emocional. Salovey tornou-se presidente da Universidade de Yale e Mayer é professor na Universidade de New Hampshire. O modelo que criaram, hoje estruturado em quatro ramos, continua a orientar boa parte da investigação séria em IE.

Porque é importante conhecer as origens da inteligência emocional?

Compreender de onde veio o conceito ajuda-te a distinguir o rigor científico das versões simplificadas que circulam por aí. Saber o que Salovey e Mayer realmente propuseram protege-te dos mitos e mostra-te que a inteligência emocional é uma capacidade real, que se pode medir e treinar. A história dá-te o critério para separar ciência de moda.

O rigor que continua a ajudar pessoas reais

Salovey e Mayer merecem que o seu nome volte à luz. Não por vaidade, mas porque a forma como honramos uma ideia começa por lembrar quem a pensou. Dois psicólogos que, num tempo que opunha razão e emoção, tiveram a lucidez de as reconciliar — e a paciência de o fazer com rigor.

A ciência que fundaram não ficou fechada nas universidades. Está viva, hoje, cada vez que alguém aprende a nomear o que sente, a usar uma emoção como informação em vez de a temer, a regular um impulso antes de o transformar em dano. A inteligência emocional que estes dois investigadores definiram continua a ajudar pessoas reais a viver e a liderar melhor.

É esse o compromisso que herdamos deles: unir o rigor científico ao calor humano, sem sacrificar nenhum dos dois. É essa a linha que a Escola de Inteligência Emocional procura continuar — pegar na ciência séria da inteligência emocional e traduzi-la em prática que muda a vida de quem a leva a sério.

Fica então a pergunta que Salovey e Mayer, à sua maneira, nos deixaram: e se as tuas emoções, em vez de serem um problema a controlar, forem uma inteligência à espera de ser desenvolvida? A resposta não está num livro famoso. Começa no dia em que decides levá-la a sério.

Queres trabalhar inteligência emocional com método?

A CIIE e os assessments EQ-i 2.0 ajudam líderes e equipas a transformar autoconsciência, regulação emocional e empatia em práticas concretas de liderança.

Conhecer a CIIE
IE

Escola de Inteligência Emocional

Ciência e presença, em português — para quem quer compreender-se e crescer. Fundada por Sérgio Salino.

Continua a ler